O PARADOXO - Capítulo 1

 








 

 

 

 

Ao alcançar a porta da casa simples e distanciada das outras do bairro padre Juan suava em bicas, fazendo com que de sua batina se desprendesse um odor ácido de suor pela longa exposição ao sol, que naquela tarde parecia ainda mais quente que de costume para aquela época do ano. 

– Gracias a Dios que vino, padre. Temía que no llegase a tiempo. Él está bien mal. – disse a senhora que o recebeu, com um sotaque que o religioso achou ser do extremo norte do país. 

– Onde ele está? – perguntou, sem reduzir o ritmo dos passos. 

– No quarto... No fim do corredor, padre. – disse a mulher. 

– Sr. Molina! – falou o padre aproximando-se da cama e tomando a mão do homem. 

– Quero me confessar padre! – falou o moribundo, num fio de voz. 

A mulher fitou o homem sobre a cama que cheirava à mofo e levantou os olhos para o padre antes de sair em silêncio, puxando a porta atrás de si. O religioso sentou-se a beira da cama, tomou uma das mãos do enfermo e cobriu-a com a estola sacerdotal que trazia ao pescoço, mantendo-a entre as suas. O homem começou a falar num tom quase inaudível que obrigou o padre a aproximar o ouvido para poder ouvi-lo. 

Já se passara quase uma hora desde sua chegada quando Padre Juan abriu a porta e lançou um longo olhar sobre a mulher que estivera sentada numa tosca e esgaçada poltrona do corredor, desde que saíra do quarto. Não foi preciso dizer qualquer palavra para que as lágrimas brotassem nos olhos de Conchita. Ela apenas passou por ele em sofrido silêncio antes de adentrar o quarto, enquanto o padre permaneceu ali por mais alguns minutos, antes de seguir em direção à porta da rua, com as tábuas sem verniz do piso rangendo sob seus passos. 

– Padre Hernández?

– Sim, Lorenzo! 

– O senhor está bem? Me parece cansado... Na verdade está quase roxo! 

– Um pouco cansado sim, Lorenzo. Andei muito e o sol estava muito forte! 

– Vá tomar um banho, padre. Estarei aqui no átrio, e padre Gonzáles também faz as preces na sacristia. – completou o presbítero. – Don Gutierrez foi à cidade, mas não deve tardar. 

– Vou sim, Lorenzo. O calor estava insuportável em Del Viso.  Acho que estou precisando mesmo de uma ducha! – respondeu o padre, dirigindo-se aos seus aposentos. 

O banho frio, porém, não foi o bastante para que padre Juan se sentisse menos agitado. Suas mãos permaneceram molhadas mesmo depois que se enxugou, e o peito ainda arfava como se estivera correndo quando retornou a Olivos. Sentou-se em sua escrivaninha e demorou algum tempo para arrumar as idéias, que pareciam fora de comando e a saltar-lhe do cérebro. Ainda não sabia o que faria com tudo o que havia escutado daquele homem que deixara inerte em seu leito de morte, poucas horas antes. O que lhe batia forte na cabeça é que, depois do que ouvira, o mundo não se mostrava o mesmo em que vivera até então, não lhe restando dúvida de que esse em que fora lançado naquela tarde não lhe permitiria mais voltar ao anterior de onde havia partido. 

              Dirigiu-se à capela interna e ajoelhou-se no genuflexório diante da imagem da virgem, mas não conseguiu pensar nas orações e nem iniciar a meditação de que fazia uso quando queria restabelecer sua harmonia interna.  Ao se recolher estava convencido de que aquela noite seria uma das mais longas que já atravessara em toda a sua vida.         

– Monsenhor?... Permita-me? 

– Aproxime-se, padre. Em que lhe posso ser útil? – Perguntou o superior. 

– Preciso lhe fazer um pedido muito especial, Don Gutierrez, e vou precisar muito de sua benção e de sua compreensão. 

– Parece preocupado, padre Hernández. Algum problema sério? 

– Não exatamente um problema, Don Gutierrez, mas ontem estive ouvindo uma pessoa em confissão... 

– O do chamado de Del Viso, imagino. Padre Gonzáles já me falou a respeito. 

– Monsenhor?... 

– Ele se mostrou preocupado ao percebê-lo assim que retornou. – completou o bispo – Posso ter certeza de que não está passando por algum problema? 

– Bem, sim... Quer dizer, não exatamente, Monsenhor, mas aquele homem me falou de coisas de que eu precisaria cuidar após sua morte. 

– E poderia dizer-me quais são? 

– Perdão, Reverendíssimo, mas me foram ditas sob confissão. Eu não... 

– Entendo, padre Juan. Mas, como confessor, sabe que não se obrigaria a cumprir um pedido de um devoto a menos que o desejasse, mas apenas lhe conceder os sacramentos. 

–Não tenho dúvidas disso, Monsenhor, mas aquele pobre homem revelou-me fatos que precisam ser levados ao conhecimento da família e ficarão em suspenso caso eu não os faça chegar aos envolvidos. 

– Confesso ser algo bastante incomum, padre, mas não me caberia impedi-lo de cumprir o que seu coração lhe pede para o que aquele homem lhe transmitiu. 

– Eu lhe fico muito grato, Monsenhor, e espero que me autorize a partir ainda esta tarde. 

– Tem meu consentimento, padre, e que Deus o acompanhe e lhe permita cumprir os propósitos que Ele lhe designou. 

– Obrigado, Reverendíssimo. Que Deus também permaneça com o senhor.


 

              O pequeno Antonio passava horas no quintal, seu local favorito da casa, no alto da amoreira de onde podia descer apenas para almoçar, ou envolvido com seus gatinhos e sua cachorra. Na última cria dela convenceu a mãe a encomendar uma casa de madeira para abrigar os filhotinhos que nasceram, e levou uma bronca quando foi suspender a encomenda a mando do pai e já encontrou o casinha pronta, obrigando seu pai, quase em estado de fúria, a pagar o carpinteiro e aceitar a casa para os cãezinhos. Mas para Antonio depois foi uma festa: a casa de madeira era grande o bastante para caber nela e ficar horas lá dentro paparicando os cachorrinhos, enquanto a mãe pacientemente aguardava do lado de fora até poder entrar de novo para amamentar seus filhotes. 

              Enquanto os irmãos dele passavam o dia na rua brincando com os garotos do bairro, e sempre acompanhados dos primos, Antonio gostava de mergulhar no seu mundo com seus bichos e suas plantas, e à noite tomar da caneta e criar um monte de estórias com seus personagens animados e inanimados: seus cães e gatos, suas árvores, e até as barulhentas galinhas empoleiradas no galinheiro no fundo do terreno que, para ele, era o universo que ele explorava assim que tirava o uniforme no regresso da escola. Tudo o que acontecia no quintal, como o lagarto que decidiu se esconder na casinha dos cães para se abrigar da chuva e foi abocanhado pela mãe zelosa, acabava nas páginas do caderno de Antonio, que produzia deliciosos diálogos com suas árvores, com seus bichos, não faltando nem mesmo conselhos aos lagartos para não vivenciarem outras “tragédias” como a do seu parente desavisado. 

Antonio nunca teve qualquer proximidade com Diogo, o irmão mais velho. Além da diferença de idade contribuindo para isso – seu irmão era quatro anos mais velho – ainda havia o distanciamento imposto pelo próprio Diogo, que sempre buscou manter os privilégios de filho único, posição que mantivera até Antonio nascer.  O fato é que nunca se aproximaram, e quando menino Antonio nem se dera conta disso. Na ingenuidade de seus onze anos, entendia aquele alijamento pelo irmão quase como algo natural, talvez devido a não compartilharem dos mesmos gostos ou das mesmas companhias. Mas na verdade isso não produzia no menino nenhum sentimento de rejeição pelo distanciamento de seu irmão. Ele se via conduzido para criar um mundo só seu, e parecia não se dar conta de que Diogo nunca desejara compartilhar o mimo que recebera principalmente do pai, que continuava se comportando como se Antonio nunca tivesse nascido. 

Em contrapartida, o menino também parecia não perceber nada estranho na postura do pai e do irmão, só vindo mesmo a se dar conta disso muito tempo depois, nos últimos anos de adolescência. Mas foi pelo próprio Diogo que Antonio tomou conhecimento de um fato que iria associar mais tarde à raiz da permanente distância que sentiria do pai pelo resto de sua vida. Diogo, por sua vez, quando fazia referência ao fato, sempre o relacionava à rebeldia de Antonio, mas só com o passar do tempo este começou a entender o contexto que envolvera o incidente, a partir da relação que observava entre pai e filho e da qual ele percebia claramente ser mantido do lado de fora. 

– Na hora que papai chegou do trabalho a mamãe contou pra ele da briga que você tinha tido comigo de manhã. Ele não disse uma palavra antes de tirar o cinto e partiu pra cima de você, e te surrou tanto que quando parou você saiu mordendo tudo o que encontrava pela frente. – contou Diogo. – Você saiu mordendo tudo: de quem tava por perto até os pés da mesa! 

              Antonio nunca conseguiu se lembrar da cena, posto que quando acontecera tinha apenas três anos de idade, e Diogo sete. Mas sua aguçada percepção lhe dizia que o pai o espancara daquela forma por alguma desavença que tivera com Diogo, como aconteceria muitas vezes depois, e quando percebeu que o pai jamais ficara do seu lado. Na verdade Antonio nunca entendera bem aquela relação entre eles, pois que a vivenciando desde que se entendera por gente, se acostumou com aquilo de modo a que durante toda sua infância nunca lhe passou pela cabeça que poderia ter algo de estranho naquela relação. Diogo era para o pai uma espécie de figura intocável – quase sagrada – que ele parecia ter que proteger de tudo e de todos. Só bem mais tarde Antonio começaria a entender as conseqüências que isso traria, de forma definitiva, para a vida de toda a família. 

 

Ao entrar em seu quarto para fazer as malas padre Juan separou umas poucas camisas “Clergymann” e a estola sacramental para alguma necessidade, mas sabia que dificilmente faria uso delas; daí porque preencheu ao outros espaços da bagagem com roupas comuns.  Ao início da tarde deixou a igreja com destino a Ezeiza, onde pegaria o vôo reservado por telefone.  Assim que desceu os degraus da igreja, antes de entrar no taxi olhou demoradamente para a fachada de Huerto de los Olivos, coberta por espessas trepadeiras, e se perguntou se em algum momento ela o acolheria de volta, ou se depois de tudo o que iria descobrir passaria a integrar apenas as lembranças de seu passado.

 

– Herr... 

– Hernández.  Juan Pablo Hernández. Reservei um quarto ontem. De Buenos Aires. 

– Perfeito, senhor. Localizei sua reserva. Seu apartamento é o de número 709A. O funcionário vai ajudá-lo com as malas. O senhor quer ser despertado pela manhã? – pergunta o recepcionista, usando um espanhol carregado de sotaque alemão. 

– Sim, por favor. Poderiam me chamar às sete? 

– Sem dúvida, Herr Hernández. O café é servido a partir das seis horas. Gute nacht! 

– Vielen Dank. Gute nacht! – retribuiu Juan. 

Quando o telefone tocou na mesa de cabeceira padre Juan já voltara do restaurante, pois que estivera acordado há quase duas horas.  

– Guten Morgen, Herr Hernández. São sete horas. Quer que sirva seu café no apartamento? – perguntou o rapaz da recepção. 

– Não é preciso. Já o tomei no restaurante e estou de saída. Muitíssimo grato. 

– Für nichts, Sir. Um ótimo dia! 

Ao colocar o telefone no gancho padre Juan sentiu o cumprimento de uma forma diferente da que se acostumara ao longo de toda sua história de vida. Agora sabia que aquele não seria um dia como os outros, mas o que não sabia é como seriam todos os que ainda estavam por vir. Apenas que não havia nada a fazer senão descobri-lo, já que não havia como retornar ao que foram os anteriores, quando ainda pensava ser aquele o mundo que teria até o último dia de sua existência. 

O taxi o deixou em um local a noroeste de Stuttgart, no pequeno lugarejo mencionado no endereço do envelope. Padre Juan desceu e caminhou pela rua estreita e de aspecto pobre, com calçamento de pedra, quando percebeu que a numeração era irregular e o obrigou a voltar no sentido contrário ao que andava, pois que devia estar se afastando do endereço procurado. Deu com uma porta de madeira que um dia fora de cor clara, mas que agora revelava uma madeira escura por baixo da pintura bastante descascada. Uma portinhola na parte superior, de vidro canelado com barras de ferro se cruzando sobre ela, indicava que era como os moradores deveriam identificar quem chegava. 

Não percebendo nenhuma campainha, bateu na porta e ouviu uma voz feminina perguntar em alemão:“Ver ist es?”... 

– Sou o Padre Juan Hernández. Venho por parte do Sr. Domingo Molina, de Buenos Aires – falando em espanhol. Um silêncio de alguns minutos se seguiu, até que a janelinha envidraçada da porta foi entreaberta e Juan percebeu por ela um rosto semi obscurecido pela pouca iluminação interna, que deveria estar vendo-o à luz do sol. Logo ouviu o barulho da corrente da porta sendo retirada do ferrolho, coisa pouco comum na cidade que não tem grandes preocupações com segurança. 

Uma mulher bem clara, aparentando seus 50 anos, entreabriu a porta devagar enquanto o observava. Ele sorriu, perguntou se seria Eva Molina, e se poderiam falar. Ela se afastou para que ele entrasse, e lhe indicou uma cadeira acima da qual ele notou um quadro com uma foto antiga e amarelada de um homem de barba e chapéu, vestindo um terno de linho branco. Notou que a casa, diferentemente do que aparentava pelo lado de fora, era ampla e possuía um longo corredor que revelava vários cômodos, pelo número de portas que pôde perceber. 

Acabara de se sentar quando outra voz feminina foi ouvida do interior de um cômodo que deveria estar mais ao fundo: 

– Mãe, você disse alguma coisa? 

E antes que houvesse tempo para uma resposta, uma bela jovem de seus 23 a 25 anos irrompe na sala. Dá com a presença do padre tão logo sai do corredor e corta a frase pelo meio, mostrando-se surpreendida por aquele homem alto e de aparência educada que olhava diretamente para ela.   

– Desculpem... Não quis interromper! – disse ela, um tanto quanto desconcertada e ameaçando voltar para dentro.  

– Não, por favor – disse o padre – Eu é que peço desculpas por tê-la assustado. Sou Juan Hernández, senhorita. Prazer em conhecê-la! – falou, estendendo-lhe a mão. A jovem olhou para a mãe, em seguida para o padre, e completou: 

– Não quero atrapalhá-los. Se precisarem de algo estarei lá dentro, não é, mamãe? – E afastou-se em direção ao local da casa de onde saíra. Padre Juan pareceu ter apreciado a figura alegre da moça, pois que permaneceu sorrindo após ela ter deixado a sala, até que Eva Molina voltou a falar, só que desta vez em espanhol: 

– O senhor disse que veio a pedido de Domingo Molina! E que é padre em Buenos Aires, não é assim? 

– Exatamente, Sra. Molina. Trata-se de seu pai, segundo o que ele me falou. E trago uma carta que me pediu fosse entregue somente à senhora. 

Eva Molina o olhou como se adivinhando de que se tratasse, e estendeu a mão para pegar o envelope que padre Juan retirara do bolso do paletó. Abriu a folha de papel de dentro dele e sem pressa, como se já soubesse o conteúdo, começou a lê-lo em silêncio.  Poucos minutos bastaram para que as lágrimas lhe deslizassem pela face sem que as enxugasse. Durante todo o tempo em que ela seguiu na leitura padre Juan permaneceu olhando-a em silêncio, até que a mulher dobrou o papel e o guardou no bolso do casaco escuro. Juan deixou que ela tomasse a iniciativa da conversa: 

– Quando foi? – perguntou ela. 

– Há três dias. Eu fui até sua casa para lhe dar os sacramentos, e ele me falou de sua filha na Alemanha, contou-me uma história longa em seus últimos momentos, e pediu que eu fizesse chegar essa carta às suas mãos. 

– Mas o senhor optou por trazê-la, e não apenas por enviá-la a mim. 

– É uma longa história. No dia em que estivemos juntos ele me falou de coisas que eu não conseguiria resumir numa ida até os correios. Não se tratou apenas de uma mensagem a ser entregue, senhora. Aquela hora que passamos juntos foi decisiva para que eu estivesse aqui neste momento. Se me permitir, gostaria de podermos conversar mais a respeito, pois que não teria como reproduzir a conversa que tive com seu pai em alguns poucos momentos. Penso que ele queria que eu fizesse bem mais do que isso. Mas não vim apenas pela carta, mas por tudo o que falamos naquele dia. Ele já guardava essa carta há bastante tempo, pelo que me disse, e por isso vim.  



– O que estão fazendo? Não! Não!... Eu não quero! 

– Não tenha medo. Não vamos machucá-la. Quando voltar não irá se lembrar! 

– O que querem? Não! Por favor. Não! 

              A luz desce sobre seu ventre e ela não pode entender o que estão fazendo. Tenta erguer a cabeça, mas seu corpo não a obedece. A sensação de frio aumenta e as vozes repercutem em sua mente, mesmo sem conseguir enxergar quem lhe fala. Apesar de se perceber tocada, sua ansiedade vai sendo reduzida à medida que percebe não sentir dor. Não sabe onde está, com quem está nem como chegou ali.  

 

– Costuma sempre levantar cedo, Sr. Hernández? Como passou sua primeira noite em Stuttgart? 

– Sim, senhorita. É um hábito que trago há muito tempo, desde que ingressei no seminário. Bom dia! Tive uma ótima noite. 

– Seminário? – perguntou ela, parecendo curiosa.  Juan percebeu que a mãe não lhe contara que era padre, e entendeu porque o tratava de “Sr. Hernández”.

 – Chame-me de Juan, senhorita Lisa. Quanto ao seminário, teremos tempo para falar dele quando conversarmos com sua mãe. 

– Muito bem, Juan. Então dispense o “senhorita” também, pode ser? – sorriu ela – Minha mãe deve estar vindo. 

– Mas claro, Lisa! Já começo a me sentir entre velhos amigos! – brincou ele. 

Eva Molina entra na sala. Seus olhos estavam vermelhos como se não tivesse dormido o suficiente. Suas roupas, no entanto, pareciam menos austeras e mais leves que na véspera: 

– Bom dia, padre Hernández. Como está? 

– Padre? – pergunta Lisa, olhando para o rapaz com um olhar entre curioso e divertido. 

– Acaba de ter sua resposta quanto ao seminário, Lisa! – diz Juan. – Espero que tenham tido uma ótima noite. 

– Na verdade não muito, padre. O senhor sabe sobre o conteúdo da carta de meu pai? – pergunta Eva, parecendo estar preocupada com o que deveria dizer. 

– Não. Como lhe disse, ao encontrar seu pai ele já tinha essa carta guardada há bastante tempo, e não se referiu a ela senão para pedir que a fizesse chegar até a senhora. Mas peço a ambas que dispensem o “senhor” e o “padre”. Se não se importarem, sinto-me melhor se me tratarem por Juan. Até porque não estou aqui como padre. 

– Por certo, Juan, como queira! Fique a vontade para me tratar por Eva, também. Mas temos muito o que conversar. Imagino que deverá permanecer conosco, não? 

– Vim com esse propósito, Eva – disse Juan – Preciso mesmo entender sobre muitas coisas do que ouvi de seu pai. – respondeu o rapaz. 

– Então vou deixá-los à vontade – completou Lisa – levantando-se para sair da sala. 

– Fique, Lisa! – disse-lhe a mãe. – O que tenho a falar com o padre Juan tem muito mais a ver com você do que comigo! 

– Comigo? – espantou-se Lisa. Juan também se mostrou surpreendido com a declaração. Os três se sentaram e deram início à conversa. O que eles conversariam mudaria suas histórias para sempre, e Juan percebeu que as coisas que o impactaram não deixariam isentas aquelas duas mulheres, ainda que não tendo mergulhado no nível de detalhes em que a ouvira. Precisaria conhecê-las mais um pouco antes de revelar-lhes tudo o que ouvira de Molina para ter certeza de que estariam preparadas para aquilo, e por precaução não fora além da entrega da carta e dos aspectos mais importantes da conversa entre eles. Molina certamente teria escrito a elas o que acreditasse precisar chegar ao conhecimento delas. 

              As informações trocadas entre os três, ao longo de algumas horas, permitiu que Juan juntasse mais algumas peças ao imenso quebra-cabeças que Domingo Molina lhe colocara nas mãos, mas por outro lado acrescentou muitas outras perguntas ao já intrincado enigma que ele se propôs a investigar desde que saíra de Buenos Aires. Juan observou cuidadosamente mãe e filha nas suas diferenças e imaginou como estariam lidando com aquela situação que os ligara de forma ainda não compreendida, mas perceptível. Enquanto Eva sugeria conhecer grande parte do que ele lhe passou como informação, em relação a Lisa sua percepção foi de que a moça não dominava todos os fatos conhecidos pela mãe mas, diferentemente do que sentira no primeiro contato com tudo o que viria a descobrir depois, Juan não a percebeu perturbada com alguns fatos que mexeram com ele. Bem ao contrário, tomar conhecimento deles pareceu-lhe ter avivado na moça sua curiosidade para mergulhar ainda mais fundo no novelo do qual apenas começavam a descobrir a ponta. 

              A Juan pareceu fundamental neste segundo momento algumas interfaces acrescentadas ao todo que Molina lhe passara na primeira e única conversa que tiveram em Buenos Aires. Ele agora tinha convicção de que tudo o que ouvira na ocasião não se tratara de delírios de um moribundo em seu leito de morte. O que ainda não estava claro era o que faria com as informações que já reunira até ali, mal sabendo que logo depois essa decisão precisaria ser tomada, querendo ele ou não. 

 

              “E de onde vocês são?” – perguntou o diácono. – “Vimos de diferentes locais muito distantes de vocês!” – respondeu seu interlocutor. “E como podemos saber se os que estão aqui realmente estão do nosso lado, como vocês? Tem gente sua entre eles?” – quis saber o rapaz, ao que o outro respondeu: “Têm que saber apenas de uma coisa: nenhum dos nossos está aí com vocês. Não precisam sequer saber as origens deles: se estão aí é porque não são dos nossos e não foram até vocês para ajudá-los, pois não há ninguém dos nossos aí, nem haverá. Tenham isso como referência e não confiem no que lhes possam dizer. Eles não estão aí para ajudá-los. Nenhum deles!. Então não percam tempo tentando saber quem são nem de onde vêm. Os nossos estão todos aqui, de onde lhes falamos. Por agora é só o que precisam saber. Continuaremos em contato, e você será nosso único interlocutor a partir deste momento!”

 

Lisa bateu à porta do quarto da mãe e não obteve resposta.  - Mãe!... Está acordada? Diante do silêncio do outro lado bateu com mais força e elevou o tom da voz: 

– Mãe, está me ouvindo? - falou, experimentando a maçaneta e percebendo que se achava trancada, coisa que Eva não costumava fazer depois que se recolhia. Lisa começou a bater fortemente na porta, sem conseguir que a mãe lhe respondesse. As batidas e o volume de sua voz atraíram Juan, que também bateu na porta e chamou por Eva. Tiveram certeza de que algo não ia bem, pois o ruído que faziam seria ouvido em qualquer outro lugar da casa em que Eva pudesse estar naquele momento. Juan recuou e bateu fortemente de ombro contra a porta, que se escancarou com o impacto de seu corpo. A cena com se depararam fez com que Lisa se lançasse sobre o corpo da mãe estirado no assoalho.  Juan colocou os dedos sobre o pescoço de Eva e constatou que não havia nada a fazer. 


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