A Síndrome do Quebra-cabeças e a Realidade dos UFOs
A rigor, o que distingue o filósofo do cientista é a prática. Ao filósofo cabe pensar a vida, e o cientista a estuda para comprovar a percepção do primeiro. Pelo menos teoricamente, a este último é que caberia confirmar ou não o pensamento do filósofo.
Só que não raramente a teoria, quando levada à prática, inverte esse entendimento. Tanto é que, apesar de tanta informação colocada ao alcance dos dedos de qualquer pessoa pelos incontáveis recursos de que dispomos hoje, vivemos a era da descrença, onde o que menos importa é o acesso efetivo aos dados, mas o sentimento que as pessoas já construíram para acreditar ou duvidar do que lhes chega sem sequer se deter sobre as evidências.
Por tudo o que se percebe na guerra entre informação e contrainformação com que nos deparamos diuturnamente, não é mais o acesso ao conhecimento que impede as pessoas de aceitar ou rejeitar o que lhes é levado. Existe um fenômeno muito mais determinante acontecendo, que sugere tratar-se de um efeito colateral do excesso de informação, e não da falta dela. Conclui-se assim que o "rústico" mencionado pelo padre Antonio Vieira, no que é o mais conhecido dos seus pensamentos, faz algum tempo que deixou de ser a pessoa iletrada e distante do saber a que ele se referiu.
Num dia desses tive acesso a uma mesa redonda em torno de conhecido ufólogo brasileiro por uma bancada que, entre outros, trazia uma professora do departamento de física e astronomia de uma das mais conhecidas universidades do país. Ela apresentou como "atestado de competência" uma dita experiência de 40 anos na área e incontáveis títulos acadêmicos obtidos em vários países. Apesar disso, essa senhora usou argumentos em seu contraditório que fariam corar qualquer leigo no assunto, devido à frágil e rasteira sustentação de que fez uso. Poucas vezes vi uma contra-argumentação promover tamanha sensação de constrangimento, que a princípio pensei ser minha impressão pessoal, até ter acesso às avaliações sobre o encontro e constatar que todas as opiniões expressavam no mínimo o que eu sentira durante o debate. Algumas, inclusive, teciam comentários pesados contra a cientista, e não era difícil entender-lhes as razões, pois aquela senhora transformou o evento numa batalha de egos mais que desagradável.
Nossa questão aqui não é focar na autenticidade ou não dos fatos de que se tratava, mas na forma empregada para defender pontos de vista contrários. O que provocou enorme impacto foram os argumentos utilizados para defender opiniões disfarçadas de um suposto contraditório técnico que de razoável não conseguiria ser aceito pela mais ingênua e superficial das criaturas, independente da defesa de qualquer dos lados.
Com certeza a extensa lista de títulos de que a "especialista" fez uso para defender seu ceticismo pesou mais contra ela do que qualquer opinião pessoal que tivesse dado, pois que deixou ainda mais evidente sua recusa em admitir qualquer coisa que contrariasse o que já havia consolidado para si mesma, o que se mostra absurdamente contrário ao princípio mais básico de um trabalho de pesquisa que se espera sério e fundamentado em elementos técnicos e lógica.
Este fato que mencionei, no entanto, não se apresentou como nenhuma exceção. Lamentavelmente é o que se pode constatar em um número enorme de teses que supostamente deveriam ensejar dados plausíveis sendo trazidos à luz, e que não apenas geram constrangimento como comprometem a própria credibilidade da ciência que se pratica em nossos dias.
Qualquer cientista deve trazer como pressuposto básico o cuidado de não contaminar o objeto de sua pesquisa com convicções pessoais de qualquer natureza, pois que não lhe cabe julgamentos sobre o foco das análises sem a mais absoluta isenção e profundidade. Se busca reforço em seu tempo de experiência na área para usar expressões como "nunca ouvi...", "jamais ocorreu..." ou "nunca nos disseram...", é incontestável que sua estrutura cognitiva é mais moldada por opiniões do que por fatos. Qualquer pesquisa que não se debruce sobre o objeto em si não é compatível com esse nome e se mostra inadmissível como ciência, já que não cabe ao pesquisador formar juízo em cima de idéias pré-existentes. Ele sempre irá prescindir de contraditórios técnicos desafiando toda e qualquer lógica de entendimento, mas nunca as refutando sem antes ter explorado exaustivamente todas as suas possibilidades.
Qualquer cientista deve trazer como pressuposto básico o cuidado de não contaminar o objeto de sua pesquisa com convicções pessoais de qualquer natureza, pois que não lhe cabe julgamentos sobre o foco das análises sem a mais absoluta isenção e profundidade. Se busca reforço em seu tempo de experiência na área para usar expressões como "nunca ouvi...", "jamais ocorreu..." ou "nunca nos disseram...", é incontestável que sua estrutura cognitiva é mais moldada por opiniões do que por fatos. Qualquer pesquisa que não se debruce sobre o objeto em si não é compatível com esse nome e se mostra inadmissível como ciência, já que não cabe ao pesquisador formar juízo em cima de idéias pré-existentes. Ele sempre irá prescindir de contraditórios técnicos desafiando toda e qualquer lógica de entendimento, mas nunca as refutando sem antes ter explorado exaustivamente todas as suas possibilidades.
Que se dispense o leigo desse grau de criticidade, mas fazer o mesmo com alguém tido como "especialista" é imperdoável e chega a representar grande risco ao conjunto da sociedade, daí a ampla rejeição obtida pela senhora do debate utilizado como ilustração.
Mas entrando no cerne da questão, qual seria a razão para a atual crise de credibilidade diante de assuntos tidos como não convencionais? Não seria de se esperar que o livre e fácil acesso à tecnologia de informação produzisse um efeito contrário? O nível de tecnologia atual não deveria dar causa a um tipo de conhecimento bem mais confiável e preciso do que o que se obteve ao longo de nossa história?
Paradoxalmente, porém, o que se constata é que ela nos trouxe muito mais perguntas do que respostas, e muito mais ceticismo do que certezas. Mas com uma diferença incrível: o ceticismo de agora não acontece mais por falta de conhecimento mas, como dito no início, pelo excesso dele. Isso gerou uma estratégia completamente diferente da usada antes quando a intenção era sonegar a informação. Atualmente os incumbidos pelos acobertamentos trocaram a antiga estratégia da negação pela da falsa adesão, que se mostra muito mais eficaz e não é ameaçada diante de "infiltrados" ou espiões de qualquer tipo.
Há de se convir que fingir concordar com uma idéia colocando um número enorme de informações adicionais como "contribuições" que possam desacredita-la se mostra muito mais inteligente do que negá-la, pois que a negação pura e simples dá mais força a seus oponentes para tentar derrubá-la, enquanto que o falso franqueamento e "disposição para ajudar" tem força para esvaziar qualquer verdade com o mínimo de desgaste e de uma vez por todas. Pode-se dizer que o governo americano foi um dos pioneiros nessa arte da "contrainformação", exaustivamente utilizada a partir do episódio ufológico de Roswell e da guerra fria.
Que não se regozijem, então, os defensores da liberdade de informação, supondo que a liberação de "provas" por órgãos que detêm a informação seja um sinal de abertura em relação às situações que possuem interesse em acobertar, pois pode se mostrar exatamente o contrário, distanciando ainda mais o público da realidade.
Outro fenômeno bastante comum hoje nessa verdadeira "guerra da informação" de nossos dias é o ceticismo diante de fatos incontestáveis, bem como a credulidade sobre questões de cunho altamente duvidoso. As duas hipóteses se mostram frontalmente contrárias ao princípio científico, que é o de separar joio do trigo pelo esgotamento à exaustão - para enfatizar bem o pleonasmo - de todas as possibilidades para o fato em análise.
Há alguns anos cunhei uma frase que representa bem esse tipo de postura. Dizia ela: "Para quem acredita, nenhum argumento é necessário; para quem não acredita, nenhuma evidência é suficiente". E em tempo algum essa afirmativa foi mais verdadeira. Parece que estamos vivendo uma era em que só acreditamos naquilo que "se está disposto" a acreditar, porque não contraria aquelas teorias previamente concebidas, e não porque se esteja preocupado com a verdade dos fatos. A esse respeito eu lembraria ainda o pensamento de Giordano Bruno, outro pensador que chamou a atenção para o fato de que uma verdade não muda porque é ou não é acreditada pela maioria das pessoas. Dessa forma torna-se de todo inútil negar algo que não desejaríamos fosse real apenas porque leva conflito à nossa zona de conforto.
Tomando um exemplo banal e muito em moda nestes nossos tempos, tem-se uma grande discussão sobre a existência ou não de inteligência extraterrestre. Pode-se dizer que a polêmica maior não se posiciona sobre sua existência ou não, mas principalmente sobre a possibilidade de estarem ou não nos visitando. Independente de minha própria posição a respeito, o que me salta mais aos olhos são os argumentos estapafúrdios que as pessoas utilizam para se afirmarem em sua descrença.
Há que se deixar clara a diferença entre descrença e ceticismo, que muitos tratam como sinônimos. Descrença é a negação em sentido absoluto: quando não creio em algo, assumo como sedimentada em minha essência a impossibilidade de sua existência. Já o ceticismo, como premissa, não se faz definitivo, apresentando-se como um estado anterior a comprovação de um fato, e necessário inclusive para diferencia-lo da fantasia. Dessa forma o pensamento crítico pede que o pesquisador se mostre cético enquanto não chegue ao resultado conclusivo de sua pesquisa. Assim sendo, mostra-se como uma qualidade importante do perfil de alguém que faça uso legítimo da curiosidade científica para trocar crença por certeza, pois que assim não corre o risco de passar de cético a crédulo, o que é péssimo para a preservação do pensamento científico. Este não pode ter na crença o limite para sua atuação, e deverá se manter enfaticamente insatisfeito até que atinja o estágio de certeza, e "estágio" porque provisório, uma vez que a verdade imutável e definitiva não é factível.
Mas qual a razão para que pessoas inteligentes permaneçam incrédulas, independente do número de evidências incontestáveis que reúnam em torno de assuntos polêmicos? O argumento que mais se ouve é o da "ausência de provas". Mas o que seriam provas, para essas pessoas? Aí é que reside a essência da discussão: o que é prova irrefutável para uns não consegue traduzir o mínimo de concretude para outros.
Tomando a ufologia como exemplo mais clássico - já que virou uma espécie de "polêmica da moda" - os incrédulos repetidamente afirmam que nada é conclusivo, uma vez que "nenhum OVNI se mostrou de forma clara e inequívoca a quem efetivamente pudesse atestá-lo. Contudo as coisas não são bem assim. Sabe-se de episódios que superaram toda e qualquer exigência de comprovação à luz do entendimento científico do fenômeno partida de autoridades do mais alto nível como as do Pentágono ou da própria Casa Branca. Faltaram fatos concretos? Não! O sobrevoo de naves espaciais sobre o palácio do governo americano vai muito além de mero assunto de ficção, bem como outras centenas deles como a "Operação Prato" (Brasil), a "Batalha de Los Angeles" (EUA) e a "Onda Belga" (Bélgica), para citar apenas os mais documentados.
O que, então, se apresenta como causa para que muitos continuem rejeitando a idéia de que se trate de um fenômeno real, apesar dos repetidos episódios com milhares de testemunhas, registros documentais e técnicos, e tudo o que a ciência lista como "quesitos indispensáveis" para aceitá-los? Por incrível que pareça, a resposta é muito mais óbvia do que se espera: simplesmente porque não foram eles próprios que os vivenciaram, não ocorreram no seu próprio momento histórico, ou - o que é mais comum ainda - porque tais pessoas os avaliam à luz dos referenciais inequivocamente explorados à exaustão.
Por alguma razão aparentemente incompreensível, essas pessoas não conseguem conduzir o pensamento além de fatos já largamente conhecidos por nós, e tomam como referência apenas os elementos sobre os quais já temos domínio para avaliar coisas que, sob qualquer aspecto de avaliação, não ficam submetidas às mesmas condições. Quando elas afirmam que tais viagens interplanetárias se mostrariam impossíveis, por exemplo, elas apresentam como causas para essa "impossibilidade" os fatos listados abaixo, entre centenas de outros absolutamente disparatados:
1) Uma viagem como essa, mesmo à velocidade da luz, requereria milhares - ou até milhões - de anos para se cruzar tais distâncias;
2) A velocidade necessária para cruzar o espaço em tempo mais curto esmagaria seus tripulantes, impedindo que sobrevivessem mesmo que pudesse ser atingida;
3) O corpo físico desses visitantes não resistiria à tantos efeitos a que ficariam expostos durante períodos prolongados de permanência no espaço...
E os argumentos seguem nessa linha. Observados na sua totalidade, todos seguem parâmetros compatíveis com as tecnologias que dominamos (aplicáveis tanto a veículos quanto a seus tripulantes), aos meios de transporte (físicos) que conhecemos, à massa corpórea da espécie humana e os impactos sobre ela, ao binômio tempo-espaço conforme acontece em nosso planeta, além do conhecimento que adquirimos sobre o deslocamento no espaço nesse curto período de algumas décadas em que o realizamos. Só por isso já dá para avaliar a fragilidade desse tipo de sustentação supostamente técnica, mas que de cara descarta qualquer conhecimento que ainda não possuamos.
E esse tipo de argumento não subsiste apenas em cérebros tecnicamente despreparados para emprego do pensamento científico. No evento a que assisti - acreditem - muitos dos "impedimentos" acima foram mencionados pela tal cientista PHD que fez oposição enfática ao ufólogo que estivera submetido à mesa redonda formada por uma bancada de resistentes à idéia de visitantes alienígenas. O ridículo da situação não recaiu na simples discussão entre fato ou "fake" em relação à possibilidade do que tratavam, como se poderia pensar, mas sobre os argumentos empregados pelos debatentes sob alegação de "comprovação científica", o que se mostrou absolutamente incompatível com pessoas que se consideram pesquisadores, como ficou claramente evidenciado pela reação da platéia que os assistia.
Nesses dois grupos de "resistentes" a conceitos pouco convencionais como este - o dos que usam parâmetros conhecidos por nós e o dos que descreem de forma peremptória - o que fica evidente é que a grande maioria das pessoas reage como se estivesse no domínio absoluto da visão sistêmica de todos os fatos que rechaça, o que é mais improvável ainda que o próprio objeto de sua descrença. Suas razões se mostram tão herméticas quanto estivessem num posto de observação que lhes permitisse visualizar a integridade de sua linha do tempo - do passado ao futuro - e, ao mesmo tempo, distanciados o bastante em altitude para que não lhes escapasse o menor detalhe, por mínimo que fosse, de todo o cenário contextual e humano que esteve envolvido com tais fatos.
A visão sistêmica, por mais imperfeita que se mostre, bem como o pensamento científico que deveria prevalecer na busca pelo conhecimento, nos direciona para que entendamos todo o processo como um enorme quebra-cabeças do qual cada um de nós detém uma única peça,, dentre as milhares que precisaríamos reunir, para em seguida achar as interfaces que permitam assimilar uma minúscula parte desse todo de infinitas proporções. E isso, infelizmente, não se restringe aos "rústicos" descritos por Antonio Vieira, mas a muitos cérebros que se colocam no topo da "escala pensante" do planeta e que, justamente por isso, acabam fazendo com que desacreditemos deles com muito mais frequência do que na imagem obtida nas poucas peças do quebra-cabeças que já conseguimos reunir. Está faltando às pessoas se enxergarem detendo uma peça apenas, e não mais do que isso, desse enorme todo antes de contestar, de forma pretensiosa e bem pouco inteligente, a totalidade do quebra-cabeças.





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