O Índigo e sua relação com a dor #28
Dentre toda a gama de sentimentos que compõe a aquarela emocional das pessoas, o indivíduo Índigo, desde muito cedo, descobre que sua relação com a dor nunca será algo apenas diferente das demais pessoas, mas extremamente complexa e, o que é pior, insolúvel. O Índigo, na verdade, contraria todos aqueles princípios que as pessoas comuns estão acostumadas a entender como integrantes da existência delas na esteira dos velhos provérbios que se prestam a defini-los. Tão logo adquira a consciência que manterá por toda a vida ele perceberá que uma grande parte deles não se aplica ao seu caso, a começar por aquele que sustenta que “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”.
Mas até no que toca aos conceitos mais banais do cotidiano das pessoas, no caso do Índigo se precisará fazer um “ajuste” de entendimento, como nesse conhecido provérbio que trata do bem e do mal. Mesmo soando estranho à maioria, nem sempre o que é “bem” e “mal” para os outros possui a mesma conotação para o Índigo, pois ele irá encará-los de uma forma totalmente diferente e inusitada para a esmagadora parcela das pessoas com quem convive, como isso de pensar que tudo o que não nos afeta é um bem, e tudo o que machuca – como a dor – seja um mal.
Difícil de entender? Não se pode culpar ninguém por isso, razão pela qual o Índigo pode ser visto por muitos como “um estranho no ninho” ou, quando se busca encaixá-lo aos padrões ditos “normais”, um E.T. que perdeu o rumo de casa e acabou permanecendo por aqui, ainda que não sendo sua escolha. Mas voltando ao provérbio, não é incomum ao indivíduo Índigo que ele enfrente forte rejeição a uma enorme quantidade de coisas que são vistas como “bem” pela maior parte da humanidade e até disputadas de forma enfática por todos. Se quiséssemos enumerá-las a lista delas seria grande demais para caber em qualquer texto, daí porque precisam ser tratadas genericamente ou, para facilitar, entendidas dentro de grupos ou categorias.
Assim, em vez de dizer que um Índigo não gosta de beber, de se drogar, de futebol e de excursões, por exemplo, basta fechar todas essas opções em algo como “atividades coletivas” para chegar bem mais rápido à cerne da questão. Tentar ainda identificar um Índigo por algumas dessas escolhas isoladamente também não vai funcionar, pois existem aqueles milhões que não fazem coisas que a maioria gosta e nem por isso são pessoas Índigo.
Como descobri-los no meio delas? Um fator decisivo é que, se forem perguntadas, as demais pessoas terão uma razão para suas escolhas: elas não fumam porque não querem ter câncer, não bebem porque é contra os preceitos de sua religião, não vão a um estádio de futebol porque preferem lugares calmos, não frequentam “baladas” por medo da violência, e assim por diante. Já os Índigo não saberão responder à mesma pergunta e o motivo, pelo menos, é simples: eles simplesmente não têm uma razão conhecida nem por eles mesmos. E a causa de se manterem longe dessas coisas já é um enigma até porque não se tratam de “escolhas”: eles se descobrem não gostando e rejeitando convites dos amigos sem motivo algum, e não raro só percebem isso muito tempo depois – décadas, às vezes – quando olham pra trás e se dão conta de que sempre se recusaram e nunca sequer entenderam a razão disso; são os “nãos”, na verdade, que os escolhem, e não o contrário. A única coisa que sabem é de sua incontrolável aversão a tudo que os conduza a estados alterados de consciência.
Não é raro que seus amigos acabem “forçando a barra” acreditando que se trate de um caso de timidez que precisa ser vencida, e insistam muitas vezes para que os acompanhe a bares e rodadas de chopp em animados encontros noturnos. E não é difícil também que nos primeiros tempos o Índigo ceda aos pedidos e os acompanhe porque, ao final das contas, ele não é antissocial e aprecia o convívio daqueles de que gosta. Mas também não é difícil que saia com esses amigos e ao chegarem no bar ou no restaurante, enquanto todos se entopem de chopp ele pede ao garçon um copo de leite. E é quando vira objeto da gozação dos demais, evidentemente, e dessa maneira o Índigo vai construindo lentamente sua fama de eterno “desajustado” que surpreende a si mesmo, pois chega num lugar disposto a fazer o mesmo que todos e se descobre não o fazendo por algum motivo que desconhece. Alguns anos depois ele irá assumir sua natureza incomum antes de se submeter a novas tentativas, aprendendo a lidar com isso ao expressar claramente aos amigos suas preferências sem constrangimento algum.
Mas onde é que entra a dor nesse elenco de descobertas que vai fazendo ao longo da vida sobre si mesmo? A resposta diferenciada no caso do Índigo nunca terá causa no fato de se sentir objeto de chacota, sofrer “bullying” ou acabar sendo excluido pelos colegas da escola ou de sua rua. Via de regra ele não se deixa afetar por essas coisas que incomodam a maioria dos garotos de sua idade já que, por alguma razão também não conhecida, ele aprende a se impor nas suas diferenças e acaba sendo respeitado nelas, ainda que se mostrem estranhas e incomuns aos demais. Supõe-se que isso se deva ao fato de se mostrar sincero, íntegro e assertivo em suas decisões, angariando o respeito e até a admiração dos que o rodeiam. E a questão da dor – contrariamente ao esperado – surge muito mais por conta dessa identificação profunda e natural com o mundo do que como decorrência de conflitos dos relacionamentos em seu formato tradicional.
Uma característica forte e diferencial do Índigo é sua forma própria de lidar com o sofrimento, que se mostra inusitada e complexa demais para ser assimilada pelos outros. O contraste mais visível se mostra no fato de que adora compartilhar seus momentos felizes mas isola-se nos mais difíceis, o que passa para todos que navega permanenentemente num “mar de rosas” e nunca atravessa momentos ruins. Mas trata-se apenas de uma versão dos fatos, e não da realidade que experimenta, em sintonia com aquele seu sentido interior de que o mundo já tem desgraças demais para que as nossas sejam ainda acrescentadas às que as pessoas precisam administrar. Sua visão de mundo se baseia em premissas como: “Se não tem nada positivo para compartilhar, guarde as que tem para si mesmo”, “se não tem nada de bom a dizer, escolha o silêncio”, ou “ninguém tem o direito de sair da vida de alguém deixando-a pior do que a encontrou”. A lógica, ao final das contas, consiste em oferecer tudo de bom que puder e viver suas mazelas sozinho para não aumentar as dos outros, que já são o bastante para todos.
Tomado por tal consciência, pode revelar posturas incompreensíveis para a maior parte das pessoas, cuja atitude é inversa à dele: a de fazer tudo que as deixa felizes apenas com os seus e recorrer a todos que possam quando experimentam momentos difíceis. Não se estranhe, portanto, que um Índigo seja descoberto sozinho no leito de um hospital sem que seus familiares sequer tenham tomado conhecimento, que passe por graves situações de vida sem nunca buscar ajuda nos mais próximos, e revelar até não gostar de ser visitado ou procurado durante essas situações. Uma das coisas que ele mais detesta é passar idéia de fragilidade, mas isso vai muito além de um posicionamento arrogante, como pode parecer a princípio, mas da certeza que traz em si mesmo de que consegue reverter todos os percalços sozinho, quando eles são reversíveis. E quando não são, tem convicção que sofrer com isso só piora ainda mais as coisas em vez de melhorá-las, e então busca aceitá-las com serenidade ao invés de iludir-se com falsas esperanças.
O Índigo não tem nada de frágil, como se pode perceber, e isso se transforma num forte motivo para não buscar por socorro de modo a fazer crer que não pode cuidar de si mesmo. Ele acredita em sua força interna, e leva isso a todas as suas práticas do cotidiano, daí porque muitos acreditam que nada de ruim consegue atingi-lo, o que não é verdade. Seu diferencial é que ele apenas sabe o que deve fazer quando se vê atingido pelos revezes que encontra, e gosta de sair ele próprio em busca das soluções, em vez de esperar que surjam por iniciativa das outras pessoas.
E quanto mais graves forem os problemas, mais ele reforça suas anteparas para ficar longe das pessoas, e neste caso não é só para poupá-las, mas também para não se fragilizar por osmose. Tem convicção plena de que consegue lidar com situações complicadas de forma muito mais eficiente sozinho do que rodeado de pessoas que possam abalar suas estruturas com seus medos e fantasias a respeito da realidade enfrentada. O indivíduo índigo está seguro quanto ao fato de que só não encontrará suas soluções onde elas não existirem, e também de que as pessoas em geral não conseguem fazer o mesmo porque esgotam seus potencial de solução com fantasias, em vez de focar na realidade que precisa ser revertida, e assim esvaziam suas próprias forças. Sabedor disso, prefere não as ter por perto nesses momentos mais graves para que elas não contaminem sua própria força com suas fragilidades e a perda de energia decorrente de seus medos. Ele tem plena consciência do potencial destrutivo do medo frente a esses momentos, e do risco que representam para induzi-lo a acreditar que não pode cuidar de si mesmo.
Mas se alguém achar que essa força que traz dentro de si protege o Índigo das dores estará completamente enganado. Ele tem plena consciência de que sofre pelo menos três vezes mais do que todo mundo, e isso não se trata de mera expressão de retórica: ele sofre profunda e diuturnamente as dores do mundo, as dos outros e as suas próprias. A diferença é que não se coloca como vítima diante desse fato e o entende como parte integrante do contexto diferenciado em que vive e que, diga-se de passagem, até sente um forte orgulho íntimo de que seja dessa forma, o que para os outros é assimilado como arrogância ou “ar de superioridade”. E isso tem uma razão simples e plausível: é muito difícil para ele disfarçar o sentimento de desprezo que percebe em seu interior ao se deparar com a fragilidade alheia. Possui uma inequívoca convicção de que não fazem o mínimo para explorar seu potencial interno, escolhendo sempre sobrecarregar os outros com seus traumas e conflitos insolúveis, apenas porque não se propõem a lidar com seus medos. Ele não esconde, inclusive, uma clara demonstração de raiva diante dessa postura que considera covarde por parte dos outros, e que os coloca menores do que seus próprios medos. Diante disso – principalmente quando a percebe se repetindo continuamente em moto-contínuo – recolhe-se àquela “insignificância” que se atribui, mas que na verdade é uma ação de auto-proteção contra tudo o que parece uma capitulação antes mesmo de se permitirem entrar no campo de batalha. Ele não desconhece nem consegue evitar o sentimento de raiva e desprezo que o domina quando se vê diante desses atos de covardia diante da vida por parte das pessoas, principalmente por estar consciente de que, sempre que os adotam, alguém vai ser sobrecarregado pela busca das soluções que elas não praticam. Sabe que, no final das contas, as corajosas acabam punidas e sobrecarregadas por suas qualidades, em vez de agraciadas por seus méritos. Seu senso de justiça entende que se cada um fizesse apenas a parte que lhe cabe para si mesmo, o mundo seria bem mais justo, equilibrado e igualitário, e os covardes se mostram os principais responsáveis pelo seu desequilíbrio.
Pessoas omissas, covardes e que se apequenam frente à vida poderiam ocupar um capítulo completo na história emocional dos Índigo, mas eles sabem que não têm como mudar o histórico de vida equivocado que tais pessoas construíram, e seu recurso então é transformar a raiva em complacência, para continuar fazendo seu papel de oferecer ajuda. Mas não conseguirá jamais superar seu eterno dilema: sabe que será paciente e compreensivo até o último de seus dias com aquelas que acabaram frágeis pelas contingências da vida, mas nunca o conseguirá com as que escolheram ser frágeis por medo de enfrentá-la, e por conta disso o conflito interno se faz intenso, pois que se cobra que no mínimo lhes oferecesse seu perdão. Daí que esse complexo lado de sua consciência é comumente visto como arrogante e superior pelos que não se aprofundam na questão, mas tudo o que ele pretende é não se mostrar complacente com o erro, e despertar as pessoas para que reajam e descubram a capacidade imensa que têm dentro de si para tornar o mundo e a vida delas próprias bem melhores do que são.
Fala-se muito de uma suposta “arrogância” como característica comum a indivíduos Índigo. Uma coisa que contribui muito para esse crença é a recusa por parte deles de integrarem grupos ou segmentos humanos, como torcidas organizadas, filiar-se a partidos políticos, associar-se a clubes, praticar uma religião, seguir dogmas e doutrinas, etc. Em resumo, o Índigo se mostra avesso a qualquer forma institucionalizada de pensamento coletivo. Ele sempre acredita que conseguirá dar sua contribuição de forma bem mais efetiva quando mantém distância dos instrumentos usados pelas pessoas para levantar suas bandeiras ou defender ideologias em que acreditem.
A rigor ele traz em si uma profunda rejeição e até um certo sentimento de desprezo pela ideia de formar fileiras em torno do pensamento alheio. Isso traz como consequência, logicamente, a sua conhecida dificuldade para se submeter a lideranças ou até aceitar esse papel atribuido a ele por qualquer grupo que apoie seu pensamento. Ele explicitamente diz não acreditar no pensamento de alguém conduzindo e “formatando” os de outras pessoas - seja fazendo a cabeça de outros ou permitindo que façam a sua - pois que isso agride seu sentido de independência para reunir dados, dar-lhes forma através da lógica e colocar o resultado em prática sem que o pensamento original seja desvirtuado no decorrer do processo pelos seguidores que irão se agregando à mesma bandeira.
Ainda assim, o Índigo não rejeita o pensamento alheio de forma irracional, como esse seu espírito libertário conduz a pensar. Ele irá se mostrar bastante receptivo ao perceber o surgimento de ideias inovadoras e revolucionarias partindo de qualquer pessoa, e identifica um grande potencial de mudança a partir delas. E ninguém duvide de que irá apostar alto para que elas sejam levadas à realidade de todos, pelo menos enquanto não perceba alguma deturpação ocorrendo em relação ao pensamento original. Se isso se tornar evidente, vai reagir tirando seu apoio e inclusive pode passar a ser um ferrenho combatente dos que defendera até então, pois que deixa claro sua fidelidade às ideias, mas não necessariamente às pessoas.
Mais uma vez, diante de revezes desse tipo, ele irá vivenciar intenso sofrimento e lutar contra sua vontade de abandonar a todos e tudo pelo que estivera lutando, mesmo reconhecendo que muitos se prestaram a massa de manobra, mas acreditavam estar fazendo o certo. Por tudo o que já se disse aqui pode-se deduzir o peso insuportável que o sentido de “massa” exerce sobre a alma do Índigo. Sua dor se instala quando percebe algum tipo de distanciamento, por menor que se mostre, de algo que precisa manter e lhe serve de âncora, principalmente ao se ver diante do que ainda não consegue definir com precisão: sua visão sistêmica. Irá recorrer a ela, tentando resgatar sua percepção integral do todo, a cada vez que o suceder de muitos acontecimentos o deixarem confuso ou inseguro quanto ao caminho a seguir, ou que lado defender no plano das ideias. Ele se vê fazendo parte de um todo bem maior do que tudo o que se conhece, e que até ele mesmo não consegue dimensionar, mas que ainda assim luta com todas as suas forças para não perder de vista, e a maior expressão desse esforço é sua independência e liberdade para repensar tudo, sem exceção, do mais sagrado ao mais profano, de forma permanente.
Fica mais fácil a partir daí entender porque do Índigo se ver limitado caso viesse a integrar qualquer tipo de segmento humano. Para não se sentir sufocado e distanciado de sua essência ele precisa pensar de forma autônoma e sem interferência de outrem, e mais uma vez paga um preço alto pela reação dos que não conseguem alcançar o patamar de princípios internos se sobrepondo ao sentido de grupo. Tal visão coloca o Índigo em posição de permanente dicotomia interna decorrente do enorme sentimento de amor que consegue dedicar às pessoas e ao mesmo tempo à necessidade de recolhimento quando elas não percebem a importância do sistêmico se sobrepondo às suas próprias vidas.
Outra aparente contradição que agrava o isolamento voluntário do Índigo é a percepção pelos outros de uma suposta “inconstância” ou “traição” de sua parte em relação ao que defendia até há pouco. A "incoerência" que seus ex-companheiros percebem, no entanto, se deve ao fato de que dificilmente, pela ótica do Índigo, eles se mostram fiéis à essência a ser preservada, e que ele coloca muito acima dos interesses individuais. Ao se afastarem dela, o Índigo se mantém fiel ao sentido, e não aos que seguiram em direção oposta, e é quando estes se sentem “traídos” em vez de buscarem a correção de rota, segundo o percebido pelo Índigo. Ideias diferentes das dele, ao contrário do que parece, não o assustam nem o afastam, desde que perceba nelas um acréscimo ao que já traz em si mesmo, em vez de um desvio. Ele acredita profundamente que igualdades não produzem crescimento, sendo necessário que algo diferente se junte ao que já se tinha até então. Apenas, para ele, “diferente” não deve ser confundido com melhor ou pior, mas sinônimo de contribuição. Essa é, portanto, a lógica utilizada pelo Índigo para aderir ou rejeitar qualquer ideia, incorporar ou se posicionar contrário a qualquer mudança. Para o indivíduo comum tal forma de pensar é difícil de ser alcançada, e essa dificuldade vai emprestando ao Índigo uma imagem de “arrogante”, “desleal” e até de “farsante”, quando na verdade ele não troca a fidelidade aos seus valores pela fidelidade cobrada pelas diferentes bandeiras.
Tentar negar que isso produza sofrimento ao Índigo se mostra irreal, e sua dor quando se vê diante da necessidade de novo reconhimento é intensa. Mas ele sempre se permitirá aprender muito com tudo que testemunhou, e sair ainda mais fortalecido do episódio para retomar sua luta e continuar apostando que o mundo pode ser melhor do que o das pessoas que não conseguem ver a verdade dos fatos que lhe parece tão óbvia. E ele estará sempre consciente que esse fator é um de seus pontos mais fortes, o de tomar para si as dores alheias sem desvinculá-las das dores do mundo, e por isso consegue reverter rapidamente o sentimento de tristeza e desalento a cada vez que não se vê entendido na missão que percebe trazer em si e das quais não questiona os porquês.
O que parece ficar claro ao se analisar a complexa personalidade do Ìndigo é que ele sabe que sua história jamais o livrará das muitas dores que lhe atravessarão o peito ao longo da trajetória, mas mantém uma irremovível certeza de que se levantará sempre a cada tombo, e ainda mais preparado para enfrentar a próxima do que vinha se mostrando até então.

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