O fenômeno OVNI e hipóteses sobre inteligência extraterrestre - Parte VII #8 S.VII/X

 






PARTE VII

Ceticismo, ignorância e medo do conhecimento


Com o advento da tecnologia de comunicação em tempo real, em que milhões de pessoas podem ter acesso à informação de forma instantânea assim como aos meios para checá-las por qualquer tipo de fonte, alguns assuntos permanecem fadados ao banimento e ao largo de um interesse honesto por sua pesquisa, como se demonstrá-lo passasse atestado de credulidade ingênua e exposição ao ridículo, independente de todas as evidências e registros incontestáveis que não deixem dúvidas quanto à sua veracidade. Contudo, boa parte dos que já tiveram acesso a um fato novo se mantém na negativa de admiti-lo como real, mesmo na inexistência de uma razão lógica para fazê-lo.


           
P – Sempre que se fala em objetos voadores não identificados ou se aborda a possibilidade de outras civilizações inteligentes fora de nosso planeta muitos não dão a menor importância. Qual seria a razão?
R – Os motivos são das mais diversas naturezas, mas se pudessem ser resumidos em poucas palavras, poder-se-ia afirmar que tudo o que tem potencial para quebrar paradigmas mantidos por séculos na história humana é cercado de tabu, e deixa as pessoas muito incomodadas. Há uma tendência generalizada de se varrer para debaixo do tapete tudo o que possa confrontar aquelas “verdades” incutidas por gerações, trocando-as por algo novo e inusitado que seja difícil admitir como possibilidade ainda que remota, mas passível de ser comprovada em algum momento. Incompreensível pela ótica científica é entender a recusa apenas por se mostrar distante das convicções construídas até então, até porque não existe ignorância alguma em se acreditar na verdade errada: ela acontece é na recusa em conhecer as alternativas disponíveis para se escolher a verdade certa.

P – Tem algum componente objetivo que provoque esse tipo de rejeição contra algo que não se conhece?
R – Se essa pergunta for feita para as próprias pessoas elas irão responder que não sentem interesse no assunto ou que simplesmente não acreditam nessa possibilidade, para fechar a questão de uma vez por todas. Mas tem coisas muito mais sérias por trás que podem não querer admitir nem para si mesmas. Se colocadas numa única palavra, poderia ser esta: Medo! Mesmo quando não o admitem, as pessoas carregam um medo instintivo e inconsciente de parar e pensar sobre aquilo que contrarie os paradigmas que, involuntariamente, elas lutam por preservar a todo custo. Justificam-no então para si mesmas como se tratando de desinteresse ou ceticismo, mas na maioria de vezes é o medo de confrontar seu esquema de crenças que as faz manter distância de algo que foge totalmente ao que consolidaram como verdade incontestável, o que, por si só, não se coaduna com a evidência científica. Esta não aceita ou rejeita coisa alguma antes de investigar se existe alguma probabilidade de admitir-se uma ideia inédita a partir da análise de elementos que lhe emprestem consistência.

P – Como no caso da religião.
R – Tem outras razões tão fortes quanto. Mas a religião pode ser um exemplo expressivo porque envolve crenças “estruturais”, ou seja, que dão sustentação a toda a estrutura mental e psicológica do indivíduo que a professa, sem a qual sua vida pode perder significado ou todo o sentido que mantinha, dependendo do peso que ele emprestou a esse aspecto de sua existência. Imagine uma pessoa que construiu seu sistema de crenças sobre um tipo de fundamento dogmático, e de repente lhe retiram os alicerces sobre o qual ela ergueu toda a estrutura que a mantém de pé... Ela se mostrará extremamente resistente a qualquer pensamento que possa representar uma ameaça desse tipo, e pode entrar num enorme conflito quando se vê entre abrir mão de quem goste, por exemplo, por tal pessoa forçar questionamentos, ou de sua estrutura. Se as opções vistas estariam entre abrir mão da pessoa – o que pode ser muito doloroso – ou passar batido pelo assunto que se coloca como pomo da discórdia para manter suas convicções, o que é bem mais fácil, por qual se optaria?

P – Fora outras questões também complexas que envolvem a quebra do paradigma.
R – Sim. Tem a questão social, também, que pesa muito na aceitação. Quanto mais pessoas se mostrarem céticas com relação ao assunto que quebra seu paradigma, mas resistência haverá, pois a pressão social vai atuar como um obstáculo a mais, ainda que ela tenda a aceitar que o que descobriu faz sentido, e até pudesse incorporá-lo se não tivesse que ir contra todo o seu grupo social para isso. Novamente o medo entra em cena, mas agora seria da rejeição que poderia receber dos outros, e não porque acredite impossível o que veio a descobrir.  

P – ... Seria o medo do ridículo!
R – Em linhas gerais, é isso. A pressão social é um fator muito forte. Muitas pessoas preferem fingir que não acreditam em algo do qual efetivamente não tenham qualquer dúvida simplesmente pelo medo de confessá-lo e não ser aceito, ser tido como louco ou, simplesmente, de cair no ridículo perante seu grupo social. E não se pode dizer que esse medo não se justifique. Mas o preço nem sempre é baixo, e nem todos se dispõem a pagá-lo. Os que o fazem é porque já conseguiram reunir  autoconfiança o bastante para colocar suas convicções e sua autoestima acima da aprovação dos demais, em vez de continuar sustentando um tipo de “verdade” que não mais se impõe nem para ele mesmo.

P – A crença em vida extraterrestre é um desses temas que despertam esse medo de rejeição.
R – Com toda certeza, e até para muitos que o acham plausível em função das muitas evidências que hoje se acham disponíveis, além da tecnologia que favorece registros confiáveis e análises tecnicamente incontestáveis de sua autenticidade. Mas isso não é o bastante para que pessoas aceitem substituí-lo sem resistência por seu sistema de crenças. Isso dá trabalho demais, se precisar reconstruí-lo sob outras bases.

P – Tipo o que?
R – Tipo a ideia de que o deus em que acredite possa ser falsa, de que o milagre em que se afirmou não se tratou de milagre, ou que o mostrado em seus livros sagrados como realizado por um profeta na verdade eram apenas viajantes do espaço que o teriam realizado em tempos remotos. Ele pode sentir pavor de aceitar isso até para si mesmo, e ser condenado ao inferno apenas por desafiar o que lhe transmitiram.

P – Por precisar substituir Deus por um extraterrestre?
R – Não exatamente. Admitir a existência de um ser fazendo tudo o que ele achara antes que se tratasse de “enviados divinos” não implica, necessariamente, em precisar desconstruir a ideia de acreditar em Deus. As duas coisas não se mostram incompatíveis, pois que até muitos cientistas que afirmam a existência de viajantes do espaço continuam acreditando que acima deles e de nós ainda exista um ser supremo que teria dado origem a todos, bem como ao universo que habitamos. Esse é o ponto: muitos acham que teriam que trocar Deus pela crença extraterrestre, e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Assim como na internet se encontra muita mentira, isso não faz das verdadeiras apenas meias-verdades, ou as anula. Apenas é preciso aprender a distinguir mitos, eventos fantasiosos ou alegorias de realidade.

P – Trata-se então de uma reação baseada numa resistência em relação ao novo.
R – Sim, mas principalmente na crença equivocada de não se poder questionar o antigo, e que não há mal algum em se questionar coisa alguma, mesmo as tidas como mais sagradas. Não é isso que fará com que Deus condene ninguém ao inferno apenas por querer buscar a verdade. Isso iria contra a própria ideia de entender-se o divino como uma verdade a ser buscada. O fato de seu livro sagrado atribuir um determinado evento a um ato divino, e aquilo na realidade ter sido obra de um visitante do espaço não nega, por si mesmo, a crença na existência de Deus. Mas apenas que o que se lê num livro sagrado sempre estará sujeito à interpretação de quem o escreveu num momento que, para ele, aquela era a única explicação possível, por ser a que estava ao alcance de seu entendimento na época.

P – Parece razoável, mas na prática parece não se buscar esse entendimento.
R – Existem casos conhecidos e recentes de tribos isoladas da África que até hoje constroem e veneram imagens de palha representando pilotos que pousaram um avião próximo a suas aldeias em situação de emergência como sendo “divindades”. Ao vê-los tão diferentes de si mesmos, descendo do céu, e partirem após reparada a pane, eles passaram a adorá-los como deuses pois que, até onde sabiam, apenas deuses descem e sobem ao céu por vontade própria. Por que com personagens bíblicos de tempos tão remotos seria diferente? Diante de uma civilização adiantada demais para entendermos, sempre a avaliaremos pelas referências que possuímos, já que não dispomos de outros elementos para entender a realidade dela.

P – Essa postura de explicar o desconhecido por uma ótica pessoal parece comum a todos.
R – Eu diria que em sua maioria, mas não entre os céticos que se posicionam por efeito de sua lógica racional. Ainda que pareça uma contradição, são esses que não tentam explicar nada antes de buscar todas as formas de explicação, para só depois optar pela já conhecida. Essa é a base da curiosidade científica, e daí porque chegam mais perto da realidade ao não se limitarem ao que já se dominava do conhecimento. Veja o caso da Igreja Católica, que sempre foi tida como construtora de verdades herméticas: o Vaticano já mantém há um bom tempo um super telescópio para estudar o Cosmos, e tem alertado seus fiéis de que a ideia de uma inteligência extraterrestre pode não ser uma hipótese tão absurda quando se acredita, e isso dito pelo próprio Pontífice. Uma mudança e tanto para quem, há apenas 300 anos atrás, queimava bruxas na fogueira da inquisição e condenava a ciência por ter inventado os óculos! O Papa Silvestre atribuia a Deus tudo o que ocorria ao homem, e admitir que este pudesse ser melhorado pelo próprio homem explodiu na Santa Sé como uma heresia sem tamanho. Entende-se aí o extenso período de confronto entre a igreja e a ciência. Para o Papa agora dar sinais aos católicos do mundo de que devam se preparar para aceitar uma inteligência proveniente de outros mundos, imagine-se o salto dado na linha dogmática do catolicismo!

P – E o que achou a comunidade científica dessa mudança radical de postura do Vaticano?
R – Acreditam que o clero católico sabe muito mais coisas do assunto do que acreditamos, e que hoje integrariam o seleto grupo de pessoas que detém esse conhecimento sobre vida alienígena. Isso não seria nenhuma surpresa, face a possuírem hoje um sistema complexo de pesquisa do espaço sideral, além de que o Papa é um chefe de estado como qualquer outro. Além disso o Vaticano é, politicamente, um país como qualquer outro, e sua atuação vai muito além da administração da igreja e dos dogmas da fé católica. Mas nos tempos da Santa Inquisição bruxas eram queimadas vivas por serem consideradas “esposas do diabo”. A Igreja as acusava de se prostituirem a Satanás, e gerarem seus filhos para apressar o domínio do mal na terra. Daí surgiu o mito de Incubus e Sucubus, as versões masculina e feminina do demônio que copulava com humanos para gerar esses “filhos do mal”. Pesquisadores atuais do fenômeno dos OVNIs associam essa crença a abduções de homens e mulheres nesse período para efeito de experiências genéticas entre seres do espaço e humanos. Essas mulheres abduzidas gerariam filhos que eram tidos como “filhos do diabo” pelo clero da época. E isso faz todo sentido, se pensarmos que tais experiências possam estar acontecendo desde tempos pré-históricos, como se acredita entre os estudiosos do assunto.

P – Existem mais fatos como esses associados à Igreja?
R – Podemos conta-los aos milhares, a começar por alguns bastante conhecidos, como as aparições de Fátima e suas revelações aos três pastoresinhos portugueses. Segundo os pesquisadores, toda a descrição da aparição de Fatima, como foi chamada, coincide com um contato imediato entre as crianças e seres extraterrestres. Se levado em conta que eram pastores de um lugarejo rústico de natureza rural, não seria difícil darem ao fenômeno uma interpretação baseada na realidade de um local de forte influência católica à época, e desprovido de alcance intelectual para entender o que lhes acontecera, especialmente em se tratando de crianças entre 7 e 10 anos.

P – Como foi tratada essa questão das revelações pelo clero do Vaticano?
R – A suposta revelação – bastante confusa – do “terceiro segredo”, a partir do narrado em 1917 por Lucia, não apenas reforça a ideia de um contato de terceiro grau pelas crianças como ainda a interpretação dada ao confuso texto pelo então Cardeal Ratzinger (depois Papa Bento XVI) pareceu querer dar uma interpretação da Igreja que lançaria ainda mais suspeitas sobre algo que já saberiam, mas não poderiam revelar para não gerar pânico no mundo a partir de um reconhecimento oficial partido do próprio Vaticano. A irmã Lucia, única remanescente viva, quando questionada sobre o que entregara por escrito ao Papa, disse literalmente: “Eu escrevi o que vi; não compete a mim a interpretação, mas ao Papa".

P – E quanto ao conteúdo em si, que teria vindo à tona em 2000 por João Paulo II?
R – Foi decepcionante para o mundo católico, que esperava por algo mais explícito e bombástico sobre uma suposta declaração divina aguardada por décadas, em vez de uma mensagem ainda mais enigmática e confusa. Mas para o meio científico, que encara com naturalidade a visita de seres extraterrenos, equivaleu a uma confirmação do que de fato acontecera. O texto, ditado ao bispo de Leiria em janeiro de 1944 por Lucia – portanto quase 30 anos depois da aparição – foi selado e entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício em 1957 onde ficou guardado até 2000, quando finalmente foi levado a público por João Paulo II, conforme prometera o Vaticano. O conteúdo – que seria apenas uma parte da descrição de Lúcia, segundo o Papa – dizia:

“Vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O anjo apontando com a mão direita para a terra, (...) E vimos numa luz imensa algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho quando lhe passam por diante, um bispo vestido de branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre” (...) Vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz (...)  como se fora de sobreiro com a casca (...) Sob os dois braços da cruz estavam dois anjos cada um com um regador de cristal na mão”.

P – Diante do enigma sujeito a múltiplos entendimentos, qual foi o do Vaticano que se divulgou?
R – A interpretação oficial da Santa Sé,, transmitida pelo futuro papa Bento XVI, à época “Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé”, literalmente afirmava ter feito uma “tentativa de interpretação do Segredo de Fátima” (sic):
"o segredo consiste numa visão profética comparável às da Sagrada Escritura, que não descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo fatos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas. Em consequência, a chave de leitura do texto só pode ser de carácter simbólico.” 
Em resumo, a interpretação oficial acrescentou nada a coisa nenhuma, apenas substituindo um mistério de viés religioso da igreja por outro de cunho político: o do acobertamento pelo Vaticano de um segredo ainda maior sobre o contato de três crianças portuguesas com extraterrestres.

P – Não teria sido menos constrangedor para João Paulo II manter em segredo a última das revelações?
R – Isso deixaria a Santa Sé em situação complicada face a promessa reforçada antes pelos papas que o antecederam, desde a data da suposta aparição, lembrando ainda que, para agravar a situação, uma das testemunhas oculares do fato permanecia viva e dando aval ao prometido perante todo o mundo católico. O papa, sob essa ótica, se viu num verdadeiro beco sem saída. A solução encontrada foi aquele arremedo de interpretação, mais capenga e enigmático ainda do que a transcrição ditada que dera origem a tudo. E se analisado o texto original sob a ótica de um contato alienígena, todos os elementos que se repetem em milhares de contatos desse tipo se mostraram presentes: “...um anjo com uma espada de fogo na mão” (o ser espacial portando algo que lançava um jato de luz no modelo de um laser), “ao cintilar despedia chamas que pareciam incendiar o mundo, mas apagavam-se com o contato do brilho na mão direita...” (uma descrição comum dos efeitos de luz projetados pela nave espacial dos visitantes) “O anjo apontando com a mão direita para a terra...” (remetendo à tentativa de explicar que teriam descido à terra de um local estranho), “E vimos numa luz imensa algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho quando lhe passam por diante” (seria algum portal que usariam para chegar ao nosso planeta ou a descrição de Lucia para a nave alienígena?), “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre” (mais uma vez a clara imagem induzida do contexto dos  envolvidos sendo introduzido na descrição), “Vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz (...)  como se fora de sobreiro com a casca (...) Sob os dois braços da cruz estavam dois anjos cada um com um regador de cristal na mão”... (não é difícil sentir nesta descrição uma mistura de elementos bem familiares aos pastores com os do evento de que foram testemunhas, buscando entendimento à luz de seu próprio universo conhecido).



O principal objetivo aqui não é apresentar verdades prontas, mas discutir o tema para se chegar a hipóteses que agreguem entendimento. Se o que leu despertou-lhe o desejo de perguntar algo ou colocar sua própria opinião a respeito, use livremente o espaço de comentários para formulá-la ou a envie pelo endereço luizroberto.bodstein@gmail.com, que prometo responder tão breve quanto possível. 

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