O fenômeno OVNI e hipóteses sobre inteligência extraterrestre - Parte VIII #9 S.VIII/X
PARTE VIII
O equívoco de uma crença anulando outra e da surdez para a própria lógica
Existe uma percepção clara de especialistas sobre o equívoco que muitos cometem ao acreditar que, se passar a acreditar em alguma coisa de novo que lhes seja revelado, automaticamente precisam abrir mão de tudo o que acreditavam antes, daí porque nem se aventuram a questionar seus dogmas sobre uma ótica mais compatível com a realidade. A Igreja Católica é um claro exemplo de que tal ideia não procede, a partir do momento que vem, ao longo dos séculos, corrigindo conceitos que foram construídos desde o início de sua fundação, nos primórdios do Cristianismo.
P – Qual seria a causa desse medo todo que gira em torno dos tabus sobre as verdades humanas?
R – O medo em torno de alguns assuntos atuais, como o da provável existência de inteligência extraterrestre, provém de um equívoco monumental baseado na ideia de que, para acreditar em alguma coisa que tem potencial para mudar estruturas desde há muito sedimentadas, requer obrigatoriamente abrir-se mão de tudo o que acreditara até então, o que não se apresenta, a rigor, como verdade absoluta. Como exemplo bem presente, a ideia de assumir a existência de visitantes do espaço não exige que se deixe de acreditar na existência de um criador de todas as coisas, conforme o ensinado pela bíblia cristã.
P – O clero católico de hoje, pelo visto, não se mostraria mais acorrentado aos seus dogmas da época da Inquisição.
R – Pelo menos o Vaticano tem dado provas inequívocas de que não. A própria interpretação de Bento XVI para a mensagem de Fátima deixa claro de que a igreja do Vaticano encara essas supostas verdades bíblicas apenas como alegorias que não podem ser tomadas ao pé da letra, já que não refletem realidades que surgiram depois para esclarecimento correto dos fatos relatados. Ele faz referência explícita à Sagrada Escritura cristã ao dizer que a visão dos pastorezinhos de Fátima seria “comparável às da Sagrada Escritura por não descreverem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos”, referindo-se ao fato de não serem tão precisas como uma fotografia dos eventos, mas apenas algo de natureza alegórica que se presta a simbolizá-los. Se aos pequenos pastores de ovelhas de Fátima foi atribuída essa descrição alegórica dos fatos, os novos pastores de “ovelhas” humanas, no entanto, que hoje se multiplicaram no comando de milhões de igrejas pelo mundo, nem sempre desenvolvem essa percepção, e seguem retratando episódios bíblicos supostamente ocorridos há milênios como se fossem fotografias literais de fatos que permanecem inalteráveis ao longo do tempo até os nossos dias.
P – E dessa forma contribuem para o aumento de tabus contra tudo o que se mostre diferente do que se ensinava há séculos.
R – Exato. E assim se torna inevitável que os diferentes textos entrem em contradição uns com os outros, pois que foram escritos por um grande número de pessoas e ao longo de um período muito extenso da história humana. Então considera-los como se se tratassem de uma verdade única, escrita num mesmo momento e por uma única pessoa, é o seu maior equívoco. O próprio Cristo, a partir do Novo Testamento, fez questão de revogar muitos dos ensinamentos apresentados no Antigo, como demonstrado numa das passagens bíblicas mais conhecidas, onde teria declarado: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. Assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13,34). Em linguagem atual ele estaria dizendo aos que insistiam em se guiar pelos 10 mandamentos de Moisés: “Esqueçam essa ideia de achar que tudo o que Moises ensinou permanece igual. Vocês precisam entender que agora não é mais como no tempo dele!”. Mas apesar dessa mensagem sobre a necessidade de não se pensar com a cabeça de nossos antepassados parecer tão óbvia, por conta de hábitos, costumes, crenças e regras totalmente diferentes dos que agora em vigor, muitos continuam defendendo que se deva seguir a ferro e fogo o que fora escrito há milênios.
P – E o que se poderia fazer para consertar esse tipo de erro de análise?
R – Muita coisa por um lado, e quase nada por outro. Pergunto, por exemplo, a um pastor de hoje se ele tomaria seu filho nos braços e o mataria, caso sonhasse com Deus lhe pedindo para fazê-lo de modo a provar sua fé, como na passagem bíblica que relata o teste de Deus a Abraão para que matasse o filho único Isac. O pastor me responde, sem hesitar, com um claro e inequívoco “Não”, em alto e bom som. É evidente que não poderia ser de outra forma, a menos que quisesse ter seu juízo e sanidade mental questionados, como se faria com qualquer pai que alegasse ter assassinado o próprio filho em nome de sua fé! Apesar de se mostrar tão óbvia tal postura, na prática eles continuam ensinando a seus fiéis que a história de Adão e Eva e do pecado original pela tentação da serpente aconteceu realmente, sem fazer nenhuma ressalva de que, para os antigos, aquela era a única versão que faria sentido para justificar o aparecimento do homem na Terra, já que ainda se passariam muitos milênios até que Darwin apresentasse sua Teoria da Evolução Humana.
P – O que evidencia que a quebra dos paradigmas não se faz necessariamente por aplicação da lógica, mas por escolhas.
R – Exatamente. Muitos sequer param para pensar sobre em que não cabe mais continuar acreditando, mas outros tem consciência de que aquilo não faz mais o menor sentido, mas continuam ensinando da forma como lhes ensinaram, apenas porque acreditam não ser deles o papel de corrigir a distorção. Apenas esse exemplo a que me referi na resposta anterior já deveria servir como prova inquestionável de que qualquer livro sagrado não pode, em hipótese alguma, ser tomado ao pé da letra em tudo o que diz para que se assumam seus relatos como verdades incontestáveis. No mínimo precisariam ser vistos como imagens de um tempo remoto que não podem dispensar as necessárias adaptações aos novos tempos. Mas sabemos que não é bem isso o que acontece na prática. E esse não é o maior obstáculo a ser transporto para que as pessoas se mostrem abertas a assumir algo mais próximo da realidade. Existem outros ainda mais difíceis.
P – Gostaria muito de saber quais seriam.
R – Essa recusa em escutar a própria lógica não se resume a histórias do passado não submetidas a tais ajustes para o momento presente: o esquema de crenças humanas chega ao ponto de não respeitar qualquer resquício de inteligência ao negar verdades tão incontestáveis quanto o avanço inexpugnável do conhecimento que, em nenhuma hipótese, se faz passível de regressão a menos que se perca o elo com aqueles que o detinham num estágio anterior da existência. Existem grupos que, contrariando todo e qualquer lógica de entendimento, escolhem voltar no tempo do conhecimento conquistado para um tipo de modelo que se aproxima de uma “lavagem cerebral voluntária”, como se fosse possível simplesmente apagar da memória toda a evolução que se obteve de um momento determinante da história pra frente, e retornar para o passado onde se adotava um conceito há muito separado por todas as áreas do conhecimento humano. Seria assim como fizeram os “Amish” e os “Mennonites”, ou Menonitas, dois ramos de judeus ortodoxos americanos que em dado momento recusaram-se a usufruir de todos os avanços tecnológicos da humanidade. Suprimiram a energia elétrica, passaram a viver em comunidades fechadas com hábitos e cultura da idade média, e criaram uma sociedade só deles de característica medieval com iluminação a vela, sem água encanada nem automóveis, e tudo movido a tração animal. A medicina e o ensino deles também regrediu para o que poderiam obter por meios naturais, sem qualquer ligação com nosso sistema educacional ou de saúde.
P – Em resumo, criaram um mundo paralelo embutido dentro do outro em que vivemos.
R – Correto. E essas posturas podem ir de algumas mais simples às mais radicais, que pareceriam próprias de uma raça alienígena recém chegada de algum lugar mas, ao contrário das que temos notícia, se apresentasse infinitamente atrasada em relação à nossa. Essas teorias malucas são capazes de levar seus adeptos a tempos imemoráveis da história, que remontariam aos primórdios de todos os avanços por que passamos ao longo de séculos, como é o caso de uma surgida recentemente, que voltou a defender o planeta como sendo uma superfície plana, em vez do formato esférico que sabemos real a partir de Copérnico e Galileu, há cerca de 600 anos atrás. A sedimentação de uma crença nesse nível se mostra mais insólita e inverossímil do que a ideia de um dragão mitológico sendo materializado diante de nossos olhos, bem no centro de nossa sala.
P – Coisa que parece ter muito menos sentido do que se acreditar em discos voadores.
R – Sem dúvida, principalmente porque para acreditar neles basta olhar para algo no futuro, mas para se pensar como alguém do tempo de Galileu é preciso negar 600 anos de história, que ele sabe ser real, e voltar para trás, como se nada tivesse acontecido desde então. Isso fica mais difícil de ser compreendido porque contraria a logica patente e instantaneamente comprovável dos restantes sete bilhões e meio de indivíduos do planeta inteiro, pois que basta ligar o computador e acessar um canal de vídeos para ver o globo terrestre mostrado de milhões de ângulos possíveis e imagináveis. Como se não fosse o bastante, quando acessado um programa como o conhecido “Google Earth”, é possível aproximar o globo terrestre da imagem até o ponto de visualizar sua casa ou qualquer outro lugar do mundo em tempo real, com tudo acontecendo diante de seus olhos. Como entender então uma regressão de 600 anos defendida como uma nova “descoberta”, se o que se pode obter de respostas apenas com uso do seu mouse fica muito além do que poderia ser chamado de “evidências conclusivas”? Esse tipo de postura vai bem além de uma coisa difícil de entender, mas se traduz por um tipo de ignorância intencional levada a extremos.
P – Traçando um paralelo, várias religiões continuam insistindo que o pouso na lua por internautas americanos é uma farsa.
R – Bem lembrado. Mesmo que para isso tivesse que se criar uma mentira global e mantê-la ao longo dos 60 anos que se seguiram sem cair em contradição, admitir que todo o projeto espacial de dois países da época e de muitos de hoje seria tudo parte de uma grande farsa. E também os milhões de filmes, fotos, documentos, as equipes das bases de lançamento, todos os astronautas que hoje fazem palestras pelo mundo sobre suas vivências e tudo o mais que se reuniu de informações a respeito nesses 60 anos teriam sido um grande teatro. Absurdamente surreal uma teoria conspiratória de tal proporção para admitir a hipótese como provável, mas ainda assim não falta gente para defender a tese. Mas apesar da dimensão de toda essa elocubração mental, ela não chega a ser um fenômeno raro na história da evolução humana e dos mitos que se cria em torno das mudanças, pois que alguns episódios marcantes, mesmo nesse nível, muitas vezes levam décadas para serem aceitas por um número significativo de pessoas, dependendo do grau de resistência ao novo que tragam consigo. O diferencial da tal teoria da “terra plana” é que não estamos falando de um avanço, mas de um retrocesso a um ponto – ou a um paradigma – já há muito quebrado pela ciência e completamente inserida no nosso cotidiano, o que a torna tão chocante quanto a ideia do planeta perder sua sustentação no espaço e se espatifar em algum chão abaixo dele já que, nesse plano de entendimento, tudo é possível, e não precisa de nenhuma lógica para sustenta-la.
P – E, contudo, essas pessoas continuam achando que seja mais fácil admitir uma terra plana do que um visitante do espaço.
R – Ainda que paradoxal, está absolutamente correto, mesmo tendo de inverter todas as probabilidades para admitir o primeiro e rejeitar o segundo em termos de exercício mental para se chegar a uma conclusão.
P – Explique melhor, por favor.
R – O que eu digo é que se você quiser seguir uma linha de raciocínio para sair do que temos de conhecimento para a terra plana, não vai sair do lugar, porque não irá encontrar um único atalho que permita chegar a ela por dedução lógica, mas unicamente por um processo de idealização, ou concepção pessoal sem nenhum outro elemento para se juntar as peças. Já para admitir outras civilizações inteligentes, bastaria você olhar para cima e se perguntar se tudo o que vemos estaria ali apenas para que nós o apreciássemos de longe, quando a Terra não passa de um grãozinho de poeira numa galáxia que nem de longe se aproxima de milhões de outras muito mais importantes que ela. Então você se pergunta se isso é possível, e se não parece pretensioso demais concluir que em meio a 100 bilhões de galáxias que se estima comporem o universo, apenas o nosso ridículo planetinha é habitado por uma civilização inteligente. A recusa então tende a se mostrar ridícula e até imbecil à luz da possibilidade de existência de muitos outras civilizações espalhadas por ele, enquanto que, no outro caso, o ridículo fica por conta de admitir uma possibilidade que não permite encontrar-se sequer o ponto de partida a ser seguido, quanto mais então chegar a uma conclusão.
O principal objetivo aqui não é apresentar verdades prontas, mas discutir o tema para se chegar a hipóteses que agreguem entendimento. Se o que leu despertou-lhe o desejo de perguntar algo ou colocar sua própria opinião a respeito, use livremente o espaço de comentários para formulá-la ou a envie pelo endereço luizroberto.bodstein@gmail.com, que prometo responder tão breve quanto possível.



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